quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Desentendida? Não!

O Carlos Botelho, que não conheço, mas que vou acompanhando nos seus escritos, é uma pessoa que me merece consideração. E, por isso, não me estava a fazer desentendida. O objectivo era outro: mostrar, através de uma caricatura de um post (que não o dele), como o preconceito poderia, afinal, estar instalado na mente do receptor da mensagem e não do seu emissor.
Mas falemos mais claramente. Independentemente da elegância ou deselegância da formulação do Rui Castro, que aqui não vou debater por me parecer demasiado irrelevante, lembro-me de, ainda há não muito tempo, ler num jornal, da província onde me encontro, que se iria realizar um debate entre dois economistas a propósito da crise financeira que assola o mundo. Não era referido o nome de nenhum deles. Olhando para a notícia, poderei considerá-la tosca, talvez por o relevante factor de captação de audiência ser exactamente a identificação dos interlocutores, mas não a apodarei de desqualificadora, estigmatizante ou bárbara.
E repare-se que a pessoalidade de cada um deles jamais se esgotará na profissão que exercem. Não obstante, não existe ali um mínimo indício de menorização. Nem vozes se ouviram em defesa dos visados.
Por que razão, então, o alarido no caso concreto?
A analogia é quase perfeita. A sexualidade de alguém também não é mais do que uma componente da identidade do ser. Mas foi no papel de homossexual que o Miguel Vieira se apresentou. E foi investido nesse papel que ele apareceu numa rádio. Identificado como tal, não me parece haver intenção de achincalhamento. Ele é mais do que isso? Claro que é. É portador de uma ineliminável dignidade ética pelo facto de ser pessoa. Faltou o nome? Faltou. Mas é o nome factor preponderante? Não, porque ele não compareceu no evento por ser o Miguel Vieira – que eu pessoalmente não faço a mais pálida ideia quem seja – mas por ser homossexual.
É claro que não faz o menor sentido as pessoas apresentarem-se como heterossexuais ou homossexuais. Simplesmente, não é o Rui Castro quem anda a propagandear o orgulho heterossexual. Ao invés, são os activistas gay que fazem da orientação sexual o núcleo central da sua identificação, ao mesmo tempo que desfilam em marchas, paradas e afins. Ao darem-se a conhecer por esse atributo – e não por outro, ou outros –, não podem depois sentir-se discriminados quando individualizados por tal qualificação. Exactamente porque foi ela, e não também outra, que os catapultou – ou, melhor, ao Miguel Vieira – para os palcos de difusão ampla dos media. Tal como os economistas que, só por o serem, foram chamados a comentar o furacão financeiro.
Mais do que isso. Se aceitarmos que as palavras são frias e só ganham conteúdo quando integradas num contexto comunicacional, não se consegue encontrar, excepto pelo perscrutar de intenções, nem sempre sindicáveis, na atitude do Rui qualquer sinal de homofobia. Donde o exercício de substituição da palavra homossexual por deficiente, doente ou coisa denota um preconceito, sim. Mas instalado na cabeça de quem o faz. Ou, em alternativa, uma mania da perseguição que não me parece nada saudável.

4 comentários:

Miguel Soares disse...

Passeando pela blogosfera descobri o vosso novo espaço. Muitos parabéns, muito debate e apresentação de opiniões.

Pela qualidade do painel de "escritores" penso que a qualidade está asseguradíssima!

Vou acompanhar-vos...

Mafalda Miranda Barbosa disse...

Querido Miguel,

que bom encontrar-te por aqui. Volta sempre. Um beijo grande,

Mafalda

Carlos Botelho disse...

Mafalda,
se tiver tempo, responder-lhe-ei ainda esta noite.
Cumprimentos.

Pedro Sá disse...

Insuportável mesmo é o orgulho GRÁVIDO...